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29.7.03

Com as férias à porta, este blog vai entrar em velocidade de cruzeiro. Não encerrará completamente, espera-se, mas fica entregue a uma abençoada preguiça estival. O mar, as sestas, um pôr-do-sol com vinho verde, o reencontro com os amigos - tudo isso poderia ser motivo para um post impressionista. Mas há que deixar dormir o pensamento, anestesiá-lo com o ligeiro vento que sopra das montanhas, embriagá-lo com um licor feito de sonhos e silêncio.
Quando chegar o fim do Verão, voltaremos mais fortes. As férias são para isso mesmo...
Regresso de um fim-de-semana prolongado, sem televisão nem computadores, e descubro que o De Direita me considera um "verdadeiro símio". Obrigado por virem assim confirmar a razão das minhas palavras. Há insultos que, vindos de onde vêm, nos soam como verdadeiros elogios.

24.7.03

A BLOGOSFERA

Na sua habitual crónica do "Jornal de Notícias", Francisco José Viegas escreve hoje sobre a blogosfera. Retomando a opinião já expressa por Pacheco Pereira, diz ele que "é impossível saber o que pensa o Portugal dos anos 90 sem referir a blogosfera, o mundo dos blogs".
Estou e não estou de acordo, meu caro Francisco. Porque, como dizes noutro ponto do teu texto, quando falamos de blogs estamos a falar de portugueses "com educação média e gostos literários acima da vulgaridade". Ou seja, estamos a falar apenas de uma parte (de uma pequena parte) de Portugal. O Portugal profundo, que não lê, que não vai ao cinema, que não vê exposições, que não sabe o que é a Internet - mas que vota! - esse fica de fora deste mundo de éter e silêncio onde residimos nós, aristocratas do pensamento, orgulhosos de poder dar opiniões sobre tudo - da política ao futebol - e convencidos de que a nossa opinião vai transformar o mundo e a vida.
Eu sei, claro, que o mesmo se passa com outros meios de expressão. Quem lê o Saramago? Cem mil? Quem lê o "Público"? Oitenta mil? Ou até, quem lê "A Bola"? É que somos dez milhões...
Julgo que não podemos perder de vista esta situação, ainda que admita, como dizes, que os blogs desafiem a imprensa escrita. Mas também aí desafiam, apenas. Porque se é interessante ler o que pensam os bloguistas portugueses (e convenhamos que no embrulho vai muito disparate e muita conversa de treta), eles não substituem a informação de um bom jornal.
Conclusão: nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Os blogs estão na moda, os jornais e a televisão falam deles, mas convém que cada um de nós tenha a humildade suficiente para perceber que, tal como se mudam os tempos e as vontades, também mudam (ou desaparecem) as formas de dialogarmos com os outros - e com nós mesmos.

23.7.03

PERDOAI-LHES, SENHOR...

Por favor: não leiam no De Direita os textos decorrentes da crónica (já aqui citada) que a Clara Ferreira Alves escreveu, Sábado, no "Expresso".
Mais vale folhear O Meu Pipi...

P.S. Meu caro Pacheco Pereira: o seu Abrupto vem lá referido como d' «Os Nossos». Acha bem?
Como não sei fazer links destes, transcrevo (copio e colo) do diáriodigital a crónica de Clara Ferreira Alves

O País ignorante

É um país anestesiado pela crise e pelo escândalo, e provincianamente ignorante, este em que vivemos. Entre a pedofilia, e as sucessivas manobras do estado judicial e judiciário e os imperativos do défice e da recessão, ninguém em Portugal parece interessado em acompanhar o que se passa no mundo. O que se passa no mundo, conforme se pode ler pelos jornais americanos e ingleses, é interessante.
O Iraque, e a sua invasão e ocupação ilegais, começam agora a derramar, em vez de petróleo e abundância democrática, as verdadeiras consequências políticas. A longo prazo, ou muito me engano ou George W. Bush e Tony Blair pagarão caro o preço da sua acção militar contra Saddam. Blair talvez mais cedo do que Bush.

Porque, se de um pretexto internacional esta guerra precisou, ele foi o das armas de destruição maciça. WMD. Armas que não existem, até agora. E não vão existir. Afinal, Saddam era um tigre de papel. Um ditador para a sua gente e um tigre de papel no plano internacional.

Os que defendem que a democracia no Iraque e a deposição de Saddam é razão bastante para a invasão e a guerra sabem que ao fazê-lo estão a pôr em causa tudo o que o direito internacional adquiriu nos últimos 50 anos, estão a pôr em causa a legalidade internacional, e sabem que nem Bush e Powell e Rumsfeld se atreveram a tanto. Por isso, necessitaram do pretexto, burocrático, como lhe chamou Paul Wolfowitz, e bem, das armas de destruição maciça. Mas, para chegarem lá inventaram maquinações, provas, relatórios, e torpedearam os próprios serviços secretos, que não estão lá muitos satisfeitos com os políticos que os orquestram.

Depois do escândalo do urânio do Níger e da morte de David Kelly, nada será como dantes. Porque, nesses países, a Grã-Bretanha e os Estados Unidos, o jornalismo de investigação, isento e brutal, existe. E em Portugal, país anestesiado, não existe. Existem receptores de informação canalizada com objectivos determinados.

Por isso, ninguém faz a pergunta: sr. Primeiro-Ministro, que provas das armas de destruição maciça, que motivaram o seu apoio aos americanos e ingleses, viu o senhor em Londres? Ou noutro lugar qualquer?

Isso não se faz, Marmelo! Então tu mandas-me para a revista Trip para ler a história da primeira equipa de futebol do Brasil e eu chego lá e dou de caras com a Marina Sanvicente. Não me perturbes a tarde, rapaz!
A minha amiga Sara escreveu:
Leio hoje notícia de ontem contando que a ETA iniciou a sua «campanha de Verão» na costa espanhola. Não há região - federal, de facto, não fora os «anti-corpos» da palavra - com mais autonomia que o País Basco. Como é possível continuar a argumentar?
Não é possível, cara Sara. O problema é que alguma esquerda ainda não o compreendeu...
Hoje (ontem) que foi dia de conversa sobre blogues no programa do Francisco José Viegas, transcrevo uma reflexão oportuna recolhida no Blog de Esquerda:

Porque a blogosfera, como nós a entendemos, é um espaço de criação e de partilha, é um hobby absorvente e um vício benigno, mas não se deve transformar – nunca – num sacerdócio.

22.7.03

AS FÉRIAS E OS LIVROS

As férias aproximam-se. Como sempre, irei para o Alto Minho, para o meu "Lugar dos Moí­nhos", no campo, a dois passos de Vila Praia de Âncora. Espero encontar por lá, mais uma vez, o Dr. Sousa Homem, esse velho reaccionário minhoto, que escreveu um livro de crónicas interessantí­ssimo - Os Ricos Andam Tolos - a que ninguém ligou um caracol. Tenho muita coisa a discutir com ele. Por exemplo:

- o estado da Nação
- o estado do Estado
- os estádios do Estado
- o estado dos Rios
- as escutas telefónicas
- os telefones das escutas
- a morte do Sr. David Kelly

e até essa obsessão do Deco em ir para o Barcelona (o Dr. Sousa Homem gosta de futebol e é um "portista" ferrenho...)

Já agora, do seu livro, transcrevo um pouco da crónica "Os Livros do Verão":

"Chegou a «época tonta». Traduzo assim, literalmente e à moda do Minho (poderia ser também, mais ruralmente, «época tosca»). Dois dos jornais que comprei durante a semana, talvez aproveitando a ocasião (a «época tonta»), perguntavam a várias figuras da política e da vida portuguesa que livros iam ler neste Verão. Eu desconfio dos livros que as pessoas lêem no Verão porque essas listas têm pouco a ver com os livros e, mais, com o espírito do tempo, das condições meteorológicas e das falhas bibliográficas de cada um. [...]
Eu não pediria a um político em férias que passasse os olhos por Sterne pela simples e suprema razão de que ninguém, nos gabinetes, compreenderia tal atrevimento. [...]
A minha sobrinha, que este ano começou o Verão mais cedo porque tem uns trabalhos a fazer Agosto dentro, veio trazer-me a lista dos livros que terei de lhe ceder como contribuição pessoal para a formação das novas gerações. Reuni-os e vi que, em cima da mesa, tinha ficado, abandonada e folheada, parte da minha vida. Não da minha vida de advogado, de minhoto bucólico, de botânico ou de eremita em Moledo, nada disso em particular. Página a página, tí­tulo a tí­tulo, eu tinha passado por aquelas linhas como um salteador e um armazenista de emoções. Guardei-as ao longo destes anos como se fossem a minha vida, sem medo de qualquer Verão que chegasse.
Eis como, em poucas palavras, se define um reaccionário."

21.7.03

Transcrevo, com a devida vénia e saudação, do Blog-Notas:

Os animais são nossos amigos

Todos os anos, por esta altura, somos confrontados com apelos dramáticos das organizações ligadas à defesa dos animais, alertando-nos para o horror do abandono a que, também todos os anos e também por esta altura, largas dezenas de animais são sujeitos.

É um ainda triste sinal dos tempos que a aquisição de um animal, numa “loja da especialidade”, possa ser feita em condições similares à da compra de um pack de cervejas ou de uma caixa de preservativos, numa “loja de conveniência” – e que, depois de usado, possa ser considerado como de “tara perdida” ou de “usar e deitar fora".

É um espectáculo degradante e confrangedor este, a que, invariavelmente, se assiste nesta época de férias; elevados à condição de “coisa fofinha! " no Natal ou no aniversário do filho mais novo, o “Bobby” ou o “Tareco” descem, neste período de ócio, para a categoria de “que seca de bicho!".



20.7.03

Já é tarde. Que fique pela noite dentro o eco destes versos de David Mourão-Ferreira, in "Matura Idade" (1973):

Em tão pouco em tão nada afinal acredito
Só me empolga o rigor com que o digo e não digo

10 CONSELHOS (IRÓNICOS) A UM CANDIDATO A JOVEM ESCRITOR

1. Nunca mande o seu original pelo correio. Entre os 36.427 originais que chegam todos os meses às editoras, o seu vai certamente ficar perdido dentro de um armário e merecerá apenas, alguns meses depois, uma simpática carta de três linhas a explicar que "por imperiosas razões de equilíbrio editorial"...

2. Não mande nunca o seu original por email. Você acha que um editor vai gastar várias dezenas de folhas de papel A4 para imprimir cada um dos originais que recebe?

3. Não diga nunca que o seu original vai modificar (ou revolucionar) a literatura portuguesa. As feiras de saldos estão cheias de livros que se apresentaram com esse propósito - e os editores não esquecem.

4. Saiba procurar uma editora adequada àquilo que escreveu e suficientemente pequena para reparar em si - a maior parte das outras tem à porta, como nos hotéis, um letreiro que diz "completo". Não é fácil arranjar um quarto livre...

5. Procure, se possível, a ajuda de um "notável". Se o seu original vier "recomendado", é evidente que as hipóteses aumentam.

6. Nunca diga que está disposto a partilhar os custos da edição. Isso é quase sempre sinónimo de que o seu original é mau...

7. Apresente um currículo escrito em português decente. Se logo no currículo diz que escreve "à vários anos", nenhum editor o vai levar a sério.

8. Nunca diga que é discípulo do Lobo Antunes ou do Saramago. Bastam os originais.

9. Não mande poemas em que "amor" rima com "dor" e "saudade" com "idade". Candidate-se antes aos Jogos Florais da câmara mais próxima.

10. E sobretudo não diga que quer ser publicado amanhã, nem fale em rebuscados planos de promoção. Espere humildemente pela sua vez.
PLUMA CAPRICHOSA

O Nelson de Matos já referiu hoje (ontem) a crónica da Clara Ferreira Alves no "Expresso". Não vou, pois, repeti-lo. Mas apetece-me citar uma frase que ele não citou: "Aliás, os livros que se vendem bem, neste país, são também os livros onde nunca acontece nada, aqueles que se dedilham do princípio ao fim sem encontrar a sombra de uma ideia".

18.7.03

Passeando pela blogosfera, descubro dois blogues que, pela sua qualidade, vão já direitinhos para a coluna da direita: o Almocreve das Petas e O Cozinheiro. Este mundo está sempre a reservar-nos (boas) surpresas...
Coisas que não se podem escrever...

Em Lisboa, os bem-pensantes acham os portuenses uns bimbos trogoloditas e os próprios bem-pensantes do Norte partilham da mesma opinião... (in Guerra e Pas)
A Ana foi para Cascais e eu fiquei sozinho com os gatos. É nestas situações que se percebe melhor como a nossa vida, quando partilhada, não se compadece com a ausência de certos gestos quotidianos. A casa está vazia, os gatos estranham, a noite é seguramente diferente. Será isto uma declaração de amor?
José Pacheco Pereira publicou no "Público" de ontem, 17 de Julho, sob o título O "depósito obrigatório" da Internet portuguesa, um artigo a vários títulos incontornável (como agora se diz).
Primeiro, pela análise que faz da importância de que se revestem certas formas de comunicação "efémera" para a compreensão do país que hoje somos (Exemplo: " Os blogues, enquanto formas individualizadas de expressão, originais e únicas, são uma voz imprescindível para se compreender o país em 2003").
Depois, ao denunciar o anacronismo do "depósito obrigatório" ( que às vezes vai discretamente para o lixo...), prática contra a qual os Editores vêm de há muito lutando.
Cada vez me convenço mais de que aqueles, homens e mulheres, que hoje assumem posições de direita (?), mas que têm uma formação de esquerda, são melhores do que os que sempre foram de direita. E melhores também do que alguns que são hoje de esquerda mas que no passado não foram...nada.
Isto é apenas um desabafo, provavelmente sem qualquer rigor

17.7.03

No tempo em que os animais ainda não falavam (ou seja, quando eu não percebia nada de posts, settings e templates), o Francisco José Viegas pôs-me na coluna aqui da direita uma série de links para blogues de que provavelmente ele gostava. Um deles, o tempo dual. Fui lá espreitar há instantes e descobri que os felizardos tinham, ontem, conseguido ver a Jacinta (sorte que eu não tive, como já atrás expliquei). O que quer dizer que andam por aqui perto, geograficamente. Se calhar, já me cruzei com eles, já estivemos juntos no mesmo restaurante, na fila do "Continente", na escuridão de uma sala de cinema. A blogosfera tem (também) isto de interessante.
HARDBLOG
Avisado por mail, chego ao Hardblog e confonto-me com este fabuloso texto de Pessoa (sobre o bloguismo, é claro):

“Invejo – mas não sei se invejo – aqueles de quem se pode escrever uma biografia, ou que podem escrever a própria. Nestas impressões sem nexo, nem desejo de nexo, narro indiferentemente a minha autobiografia sem factos, a minha história sem vida. São as minhas Confissões, e, se nelas nada digo, é que nada tenho a dizer.
Que há-de alguém confessar que valha ou que sirva? O que nos sucedeu, ou sucedeu a toda a gente ou só a nós; num caso não é novidade, e no outro não é de compreender. Se escrevo o que sinto é porque assim diminuo a febre de sentir. O que confesso não tem importância, pois nada tem importância. Faço paisagens com o que sinto. Faço férias das sensações.”

Um blogue que descobre uma pérola destas - e que ainda por cima está cheio de reflexões inteligentes, sobretudo no campo da Arquitectura - vai já direitinho para a coluna aqui ao lado.

ARQUIVO DE POESIA

Três estudos para "O rosto com que fito"

Corri terras e mares. Resta-me agora
a arte de dar voz à voz de um povo.
Cantar? Pudessem as palavras semear
um sonho. E à gente endurecida
sarar sua surdez e vil tristeza.

Houve um olhar ao sul. E mais ao sul
metade desse olhar perdi-o ao sol
da vã quimera de estar chegando o Dia.
Assim, à voz do mar, perdia a terra
quem no mar, à voz da terra, se perdia.

Desejo de um império ou império do desejo
de dar um nome ao mar e naufragar depois?
Que muito do seu sal (mais tarde alguém dirá)
foram lágrimas choradas na aventura
de irmos mais além, e o mais além ser cá.

Agora, velho e só, aguardo a morte.
Resta-me o Livro. E a arder na noite escura
serão minhas palavras o sinal.
Que se dissipe enfim o nevoeiro
na hora em que se cumpra Portugal!

*

Aqui, onde o mar se acabou, a terra aguarda.
Perdida a flor, virá alguém que a reinvente
e dê um nome a esta noite onde se apaga
o que já foi Futuro e tí­nhamos presente?

Fizesse o homem e quereria Deus decerto
a Obra: naus em terra agora a semear
heroísmos de trigo. E cada vez mais perto
o nome prometido, chão de abrigo, lar.

Mas não se fez. Nem se fizeram os milagres.
O Desejado, esse, apodreceu em Sagres,
num barco velho onde a memória se atravessa.

Há dentro em nós 'inda um fantasma que se ri.
E devagar, Senhor, vamos morrendo aqui,
onde a terra se acaba e o mar já não começa.

*

Temos o mar em frente. E o mar
é o lenço onde assoamos a saudade
de um tempo que nunca foi. Verdade
só a da terra que nos prende.

Porque nunca partimos. Nem dobrámos
o Bojador de um novo continente.
Só sonhámos. E porque só sonhámos
no sonho nos fizemos e perdemos.

Assim ficámos. Enquanto outros partiam
nós éramos desejo. Mas a névoa escondia
a asa onde crescia a nossa vez.

O mar era a miragem. Abandonada,
na praia a nau do sonho apodrecia.
E fez-se tarde, Daisy, tão tarde que se fez!

("Cadernos de Literatura", Centro de Literatura Portuguesa da Universidade de Coimbra, nº 22, 1985)
(AINDA) NÃO LI, MAS RECOMENDO.1
(homenagem ao Professor Marcelo Rebelo de Sousa)

Nocturno Chileno, de Roberto Bolaño (Gótica);

Vai e não voltes tão depressa, de Fred Vargas (Dom Quixote);

Viva San Isidro!, de Pino Cacucci (Ambar);

Brancos e estúpidos, de Michael Moore (Temas e Debates).
Fui à FNAC tentar ouvir a Jacinta. Impossível! Quando lá cheguei (a horas), já os candidatos se atropelavam no exterior.
Por que razão isto não acontece com os livros?

16.7.03

DESASSOSSEGO


O primeiro desassossego foi o próprio momento de nascer. Depois, talvez a água do baptismo me tenha desassossegado a alma. Era Domingo de Páscoa e não sei se estava sol ou se chovia.

Na infância, desassossegou-me uma menina que parava sempre junto ao portão do meu quintal e me dizia adeus com um leve esvoaçar de borboletas. Foi talvez aí que começaram os territórios do amor, a lenta aprendizagem desse fogo que arde sem se ver.

Deus perdeu-se de mim na adolescência. Desassossegavam-me então as alvoradas prometidas, onde todos os homens seriam livres e iguais.

Nasceu-me um filho e nem por isso sosseguei os rios onde passavam gaivotas ébrias de silêncio.

Em África foi a guerra e a morfina das noites brancas. C. tentou suicidar-se mas acordou viva numa cama do hospital de Luanda. Iria envelhecer depois para lá dos montes, esquecida talvez do desassossego que o seu corpo provocava no meu.

E em Abril foi Abril – que melhor nome para o desassossego?

Os dias sucederam-se aos dias, os meses aos meses, os anos aos anos. Houve amigos que morreram, houve amores que partiram, houve sonhos desfeitos e caminhos por andar.

Desassossegado me quis, desassossegado me quero, mesmo que haja nenúfares na aparente placidez das águas. Assim os engano e me engano. Assim permaneço.


16/04/2001
(Publicado em “Cadernos do Desassossego”, Albergaria-a-Velha, 2001)

FUNDAÇÃO EÇA DE QUEIROZ
No passado dia 10, escrevi aqui uma pequena nota sobre a Fundação Eça de Queiroz, a propósito das dificuldades que, dizem, atravessa. Recebi posteriormente um e-mail que agora transcrevo, por me parecer que é sempre bom conhecer todos os lados de um problema.

Sendo verdade que há uma mediocridade na forma como o assunto está a ser tratado pelos políticos locais e nacionais, não é menos verdade que:

- a Fundação deveria ter defendido uma posição apartidária que lhe permitisse sobreviver às duas marés cíclicas da nossa política;

- importa saber se a Fundação está a ser bem gerida; pelo que sei, é algo que merece ... muita reflexão;

- o Eça deliciar-se-ia a escrever sobre o que lá se passa. A verdade é que a microcefalia de hoje não é distinta da que ele descreveu.



15.7.03

Não vi (não tenho o hábito de ver) o "Herman Sic". Mas concordo totalmente com a indignação do JPP. Infelizmente, a Televisão está (quase) toda assim. Ontem, por exemplo, descobri que agora a extracção do Loto 2 e da Lotaria é feita com umas meninas "descascadas", que mais tarde, no mesmo programa, acompanhavam também (espanto dos espantos)...o Janita Salomé.
Nunca me considerei um puritano, não tenho nada contra mulheres despidas (pelo contrário) e acho até "O Meu Pipi" divertido. Mas há ocasiões (e locais) para tudo...como dizia o meu avô,que foi carbonário, maçon e ateu, mas nos ensinou algumas verdades fundamentais sobre a maneira certa de estar na vida.
Acabo de colocar o Bicho Escala Estantes na coluna de blogues aqui à direita. É uma forma de dizer que a sua leitura me interessa - ou não fôssemos quase oficiais do mesmo ofício. Mas não estou de acordo com a afirmação de que todos os blogues são iguais. Um passeio pela blogosfera é quase igual a uma volta pelas livrarias - encontra-se de tudo e para todos os gostos.
ROBERTO BOLAÑO
Transcrevo, mesmo em castelhano, a notícia que me acaba de chegar via Internet. A "Gótica", salvo erro, publicou há pouco um livro seu.

MADRID, España (Librusa) – Roberto Bolaño, autor de “Detectives salvajes”, obra ganadora del Premio Internacional de Novela Rómulo Gallegos, falleció en un centro médico de Barcelona, víctima de una enfermedad del hígado. 

Al momento de su deceso el lunes, lo que enluta profundamente a la comunidad de escritores hispanoamericanos, Bolaño dejó inconclusa una novela titulada “2666”, probablemente su obra más ambiciosa por su proyectada extensión de más de 1.000 páginas, según había declarado recientemente. 

Aunque esperaba urgentemente un transplante de hígado que habría prolongado su vida, Bolaño dijo entonces que no había dejado de escribir y que se encontraba enfrascado en un libro de cuentos y en la novela “2666”, una historia sobre los asesinatos de las mujeres de Ciudad Juárez, en México, donde vivió en la década de los años 70. 

Considerado uno de los autores contemporáneos más importantes de Chile, Roberto Bolaño nació en 1953. Entre sus obras destacan “Detectives salvajes”, “Llamadas telefónicas” y “La senda de los elefantes”.



FICA, DECO!
Uma anedota (engraçada) que me mandaram por mail. Vai dedicada ao Francisco José Viegas...

Um jogo de futebol entre o FCP e outra equipa qualquer. De repente, o árbitro marca uma falta na entrada da área, a favor do FCP. Deco vai para a cobrança e
a barreira formada está toda de costas para a bola.
- Vocês têm a certeza de que vão ficar de costas para a bola? - pergunta o árbitro, estranhando a atitude.
- Mas é claro! - justifica um dos jogadores da barreira. - O senhor acha que nós vamos perder um golaço destes?

UMA QUESTÃO DE HIGIENE

Até agora este blogue era "fechado" - isto é, não aceitava comentários - pela simples razão de que eu não sabia como se introduzia, do ponto de vista técnico, essa possibilidade. A partir de agora, vai continuar a ser "fechado", mas por razões de higiene.
É que o Nelson de Matos deu-me conta do seu mal-estar pela quantidade de comentários soezes que recebia no seu blogue. E eu, que não sabia que qualquer pessoa podia ler esses comentários, aprendi a fazê-lo e fui vê-los. Que lamentável espectáculo! Que montra esplêndida do atraso deste país!
Gostaria de dar alguns exemplos, mas não consigo copiá-los de lá para cá, e quem quiser pode sempre ir vê-los in loco.
É por estas e por outras que eu me interrogo, de vez em quando, sobre os limites da democracia - como podemos ter todos os mesmos direitos se nem todos estamos no mesmo patamar de consciência cívica e de cultura democrática?
OS LIVROS DA FEIRA DO LIVRO

As Feiras de Lisboa e Porto já vão longe, mas sucedem-se agora, por todo o país, outras feiras, maiores ou menores, que ajudam à divulgação do livro.
Não virá, pois, a despropósito recordar que as Feiras deste ano ficaram marcadas pelo lançamento de duas obras fundamentais: a Odisseia, de Homero, traduzida do grego (e em verso) por Frederico Lourenço (Livros Cotovia), e o 1º volume (Do lado de Swann) de Em Busca do Tempo Perdido, de Marcel Proust, com tradução de Pedro Tamen (Relógio d'Água).
Livros como estes enobrecem a edição portuguesa, que afinal não é tão má como alguns por vezes a pintam.
É claro que ainda não tive tempo para ler, nestas versões, qualquer uma das obras. Mas, em homenagem ao Prof. Marcelo Rebelo de Sousa, atrevo-me a dizer: NÃO LI, MAS RECOMENDO!

14.7.03

Do blogue Cerco do Porto transcrevo, com a devida vénia, este texto que, como já se viu, poderia ter escrito:
A ideia de juntar Porto e Vila Nova de Gaia numa só cidade é, diga-se, mero cumprimento de uma formalidade, já que ambas - as gentes de ambas, entenda-se - partilham desde sempre vivências culturais, económicas, sociais. A cidade, enquanto elemento vivo, não corresponde à divisão política que o rio (o Douro, não falemos aqui do outro) determina, pelo que a fusão é perfeitamente exequível e até desejável. E o alargamento do Porto até faria sentido para outras direcções, atendendo à continuidade urbana. Assim podem crescer as cidades, e basta recuar cerca de cem anos para lembrar que a Foz do Douro não fazia parte do Porto, onde entretanto se integrou com toda a naturalidade.

Saúde-se, como é de bom tom, o aparecimento do Não Esperem Nada De Mim. Para já, duas "pérolas": os textos "Tenho saudades de um jogo do Sporting" e "Eu estou farto da Paula Bobone" (este com outra "pérola" dentro: «Quem não tem consciência suficiente para definir a sua própria etiqueta não precisa de um livro de etiqueta: precisa de uma vida própria".
Meu caro Joel Neto, de si espera-se o melhor...
LIVRO ABERTO
É já amanhã, terça-feira, pelas 22 horas, que começa na NTV o programa do Francisco José Viegas Livro Aberto. Consta-me que estarão presentes, entre outros convidados, o José Eduardo Agualusa e o Luís Cardoso (cujo romance "A Última Morte do Coronel Santiago" me afiançam ser magnífico). Passem palavra, por favor, que um programa de livros, às 10 da noite, ainda que no cabo, merece uma taça de champanhe à saúde de quem lhe deu luz verde...
E terminemos, por agora, com uma saudação ao recém-chegado O Maranhão, que nos inclui nos seus escassos links. Obrigado e longa vida neste espaço sem redes nem fronteiras.
Registo com muito interesse as reflexões que o Socio[B]logue faz sobre "A Indústria Cultural do Livro e o Campo da Edição" e regozijo-me por saber que as minhas notas e as do Nelson de Matos provocam o interesse dos nossos analistas sociológicos. Um dia, irei mais longe neste diálogo. Por agora, gostaria de dizer que me interessam mais os "testemunhos do interior" do que propriamente os trabalhos teóricos desacompanhados de uma prática efectiva. Daí que acrescente a seguinte bibliografia:

- "Opiniones mohicanas", de Jorge Herralde ( o fundador e editor da "Anagrama");

- "Lo peor no son los autores (autobiografia editorial, 1966-1997)", de Mario Muchnik;

- "Pasando página. Autores e editores en la España democrática", de Sergio Vila-Sanjuán.

Qualquer destes livros ajuda-nos a compreender a problemática actual da edição, que não passa, julgo eu, por um "nostálgico desencanto", nem pela perda do"fascínio" e "sedução" usualmente associados à actividade editorial, antes tem a ver com o modo como se compaginam "qualidade" e "mercado", "interferência" e "sobrevivência".

13.7.03

LEITURA DO "EXPRESSO"

Frase do fim-de-semana: "O PS tem um tropismo: adora o debate político, excepto quando ele se realiza". (Jaime Gama)

Menezes já desmentiu, ao que parece, as intenções e declarações que lhe são atribuídas no "Expresso". Mas a mim parecia-me bem a fusão entre Porto e Gaia (eu, que nasci em Gaia, sempre me considerei do Porto).

O modelo das revistas cor-de-rosa é pior do que a pneumonia atípica - propaga-se a uma velocidade enorme e atinge territórios inesperados: veja-se, este fim-de-semana, a entrevista na "Única" com Filomena Pinto da Costa. A merecer, inclusive, chamada (com foto) na 1ª página. Ao que isto chegou, senhores!


Às oito e meia da noite, telefona-me o meu primo Zé Manel e diz-me, entre satisfeito e irónico: «Estou n' "O Cabaz do Pescador" e já mandei vir o peixe-galo com açorda!». Nunca lhe falara do restaurante, nem o sabia leitor de blogues. Com a curiosidade espicaçada, investigo. Então é assim: compra o "Público", pela manhã, e lê a crónica da Ana Sá Lopes, onde o "Oceanos" vem simpaticamente referido (obrigado, Ana!); descobrindo que o primo tem um blogue, vai lê-lo; constata então que há aí um restaurante recomendado que está aberto ao Domingo... O ciclo fecha-se. Pelos vistos, comeu bem. A blogosfera é realmente um serviço público...

10.7.03

Só hoje descubro uma simpática saudação ao "Oceanos" em A Montanha Mágica. Ficam os agradecimentos e o elogio a um blogue que, pelos vistos, partilha comigo uma paixão: Milan Kundera.
O José Pacheco Pereira surpreendeu-me com os "blogues" extraídos dos Cadernos de Camus, que li há muito, muito tempo e já não recordava. Tem toda a razão no que escreve. No fundo, hoje, os blogues (os bons blogues) são uma espécie de cadernos em que vamos anotando as nossas reflexões sobre o mundo, nas suas diferentes manifestações. É uma escrita sem rede, sem tempo para ser burilada, saída ao sabor dos impulsos que nos chegam de fora ou de dentro, quase como os antigos diários, mas com uma diferença essencial - são públicos, circulam pelos céus, provocam reacções, expõem-nos. Exibicionismo? Eu julgo que quem escreve, seja em que meio for, escreve para ser lido. Pessoalmente, atrai-me partilhar com os outros aquilo que sinto ou que penso. Quem não gostar que passe à frente. Ou que conteste, acuse, contraponha. A prática da democracia passa também por aí - por não ter medo de assumir as ideias próprias e deixar que os outros tenham as suas, e que nos rebatam, e que nos enfrentem.
Inteiro-me pela revista "Nectar" das dificuldades por que passa a Fundação Eça de Queiroz na sua Quinta de Tormes.
Leio no "Público" que os membros da maioria social-democrata da Câmara de Baião recusaram o agendamento de uma proposta que visava acudir a tais dificuldades.
O Ministério da Cultura não tem nada a dizer? Ou será que já nem a memória de Eça importa, nestes tempos de apagada e vil tristeza?

9.7.03

Parabéns ao blog Apenas um pouco tarde, do Manuel Jorge Marmelo, que festeja hoje dois meses...
Arquivo aqui um texto publicado na revista "LER". Uma pequena história da edição...

OS TERRITÓRIOS DO AMOR

Quando, em meados dos anos sessenta, decidi trocar Coimbra por Lisboa, fui ter com Joaquim Namorado, director da “Vértice”, onde então colaborava, e dei-lhe, pensava eu, a boa nova.
- Lisboa, porquê? – perguntou-me com aquele olhar sardónico que disfarçava a ternura de um velho poeta bisexto.
- Lisboa é grande e é lá que vivem quase todos os escritores – respondi-lhe a medo, como que adivinhando o que viria a seguir.
E veio – uma espécie de trovão marxista-leninista, acompanhado de uma enorme palmada no cachaço.
- Os escritores... Os escritores lêem-se. Os escritores amam-se de longe.
(Quase o mesmo que Benjamin Crémieux dizia de Proust: “Para julgar Proust à sua medida, é talvez um grande privilégio nunca o ter conhecido de perto.”)
Mas eu fui para Lisboa e comecei a conhecer os escritores. Julgo que foi essa, aliás, a principal razão que fez de mim editor: amar os livros, claro, mas amar também (e acompanhar) aqueles que lhes dão a vida e o nome.
Ao longo de quase trinta anos de actividade, convivi com muitos escritores e poderia contar imensas histórias da “pequena história” que de certo modo ajudam a perceber o carácter de cada um deles. (Alguns capítulos possíveis: “John Le Carré em Belém”; “Um contrato com Cees Nooteboom negociado numa casa de banho de Frankfurt”; “Quando Kundera teve saudades do comunismo...”)

Mas hoje quero falar-vos de Mario Delgado Aparaín e do título português do seu romance “Os Territórios do Amor”. Aparaín é um grande escritor uruguaio, um grande amigo e um fantástico contador de anedotas – o quase sempre revela, num escritor, a sua capacidade inata para contar uma boa história.
O título original do romance é “Alivio de Luto”, o que permitiria sem mais delongas uma tradução literal. No entanto, desde o primeiro momento, eu sentia que a palavra “luto” não ia bem com aquela saborosa crónica de Mosquitos e podia afastar do livro, não me perguntem porquê, um número considerável de leitores. O mesmo devem ter sentido, aliás, alguns colegas estrangeiros, pois o romance chama-se em alemão “Lua de Fevereiro” e em francês “Uma História da Humanidade”.
De modo que seguiu correio electrónico para o ciberpalheiro do Mario:
- Tens outro título a propôr? Um título que tenha sido escolhido e mais tarde abandonado...
Na volta, já ele me dizia:
- “A Balada do Professor Triste”; cheguei a pensar nele por aproximação a “A Balada
de Johnny Sosa”. Mas faz lembrar demasiado o livro da Carson MacCullers...
Era verdade e, além disso, a palavra “triste” continuava a não me agradar.
Eu tinha lido o livro em castelhano e decidi-me então a relê-lo em português: talvez encontrasse no texto alguma pista para esse título sonhado que deveria sintetizar, num lampejo de génio, a odisseia magnífica do “professor” Gregorio Esnal. Fui lendo, fui lendo, e nada. Quando, já desesperado, cheguei à última página, descobri de repente que o romance terminava com uma expressão magnífica: os territórios do amor. Estava ali, na última frase escrita por Aparaín, a chave que abriria o coração dos leitores.
Seguiu e-mail entusiasmado, veio na volta entusiasmo ainda maior:
- És um poeta! – dizia-me Mario. – Como pudeste inventar um título assim? Obrigado, irmão, muito obrigado.
Já sem perceber nada, fui à estante buscar a edição original do livro. Quando o abri na última página, constatei com espanto que o autor não havia escrito aquela frase e que a expressão “os territórios do amor” havia sido acrescentada ao texto por alta (e louvável) recreação da tradutora.
Moral da história: uma infidelidade de tradução pode estar na origem do mais apropriado dos títulos. Aparaín ficou encantado, eu duplamente encantado. Quanto à Maria do Carmo Abreu, a tradutora portuguesa do livro, a “autora” do título português do livro, saberá desta história, aqui e agora, pela primeira vez.


Sud-Express Lisboa-Paris, 13.03.2001

RESTAURANTES 3
Entre outras coisas, Matosinhos é uma espécie de sala de jantar do Porto (o que é, claro, um elogio). No meio de tantos restaurantes que por lá existem, merece hoje destaque O Cabaz do Pescador, casa sem particulares ademanes mas onde se pratica a arte de bem-comer. Recomendo-vos especialmente o peixe-galo frito com açorda...
É na Rua 1º de Dezembro, 134, com o telefone 229 363 578. E uma mais-valia: está aberto aos Domingos.
RESTAURANTES 2
Para quem goste de comida indiana (atenção: eu disse indiana, não disse goesa) existe no Porto um local incontornável: o Mendi, na Av. da Boavista, mesmo ao lado do Hotel Meridien ( a morada correcta é Av. da Boavista, 1430, lj 1 e o telefone o 226 091 200). Uma sala agradável, um serviço afável e eficiente, e sobretudo uma cozinha de excelente qualidade, que nos transporta para um outro mundo de temperos e sabores (que o confirme o Manuel Jorge Marmelo, cliente habitual da casa).
Apreciar as chamadas "cozinhas exóticas" é um acto de aproximação ao "outro", ao "diferente", que remete para a viagem e a descoberta. Nada pior do que aqueles que, em terras estranhas, sonham com o bacalhau com batatas...
Estou desesperado! Passei duas horas a escrever sobre o "Prelúdio", aceitando o repto do JPP, e no fim foi tudo para o buraco. Um passo mal dado, uma tecla errada, uma instrução infeliz, e puf!, lá se foi o texto para os insondáveis caminhos da blogosfera. Acabo mal o dia. Acho que, para compensar, vou falar de restaurantes...

8.7.03

UM PRÉMIO PARA BAPTISTA-BASTOS
"No Interior da tua Ausência", o mais recente romance de Baptista-Bastos, acaba de receber o Prémio da Crítica. Sinto-me especialmente contente. Quando há dois anos, em Paris, por ocasião do "Salon du Livre", acordámos na reedição de toda a sua obra de ficção (e festejámos o evento com uma fotografia tirada diante do "Flore"), eu sabia que esse regresso aos escaparates ia desencadear nele um novo impulso criativo, porventura capaz de lhe conferir uma ainda mais notória maturidade. Parece que acertei. O romance conquistou o público e a crítica, e o B.B. aí está, sempre jovem, a escrever um novo título da sua extensa e importante bibliografia.
Ainda estou para perceber o mistério dos blogues! Sem qualquer publicidade especial, este "Oceanos" começou a ir para o ar no passado dia 2 de Julho e, de repente, vejo-o referido um pouco por todo o lado, inclusive no Abrupto, onde o José Pacheco Pereira "recupera" os nossos tempos do Alexandre Herculano (liceu) e a aventura do "Prelúdio" (tema a que voltarei brevemente).
Recebi também vária correspondência electrónica: do Jorge Marmelo, a dar-me as boas-vindas ( o seu blogue é marmelo.blogspot.com), da Sara Belo Luís a convidar-me a visitar o seu (magnífico) Hipatia ( Sara, como é que se põem no ar essas fantásticas fotografias?), do Rui Almeida, que tem no seu ruialme.blogspot.com um excelente divulgador da boa poesia (só espero que não cumpra a ameaça de lá meter qualquer coisa dos meus primeiros livros...), do Tiago Barbosa Ribeiro, cujo projecto de Estudos sobre a Guerra Civil Espanhola (1936-1939.blogspot.com) me parece do máximo interesse (já agora, passe a propaganda, recomendo-lhe, caso não conheça, a leitura do romance "Soldados de Salamina", de Javier Cercas, publicado pela ASA) e do Fernando Dinis, que propõe no seu blogue (fdinis.blogspot.com) alguns poemas e outros textos de criação literária, sob o lema "O Ventre da Vertigem".
Pergunto-me: se isto continua assim, não faço mais nada? E o tempo para ler, para ir ao cinema, para estar com os amigos, para jantar fora? Despeço-me e torno-me bloguista profissional... Aí está uma boa ocupação para a reforma!

Agora a sério: não será que todo este mundo das novas tecnologias nos rouba tempo para outras coisas que, apesar de tudo, continuam a ser mais importantes?

7.7.03

No seu Textos de Contracapa, o Nelson de Matos comenta a minha recente "reflexão sobre a edição" e acrescenta-lhe um ponto essencial: a possibilidade de certos livros da chamada "literatura menor", ou "light", ou "mediática", criarem um novo público leitor, capaz de, por vezes, evoluir para outro tipo de leituras. Diz ele sobre esses livros:

Para além do mais eles representam "leituras" (novas pessoas conquistadas para a leitura), um modo de enfrentar outras formas de ocupação do tempo. E sem leituras não nascem leitores (pessoas que crescem, evoluem, aprendem a seleccionar, aperfeiçoam o sentido crítico, que irão gradualmente procurando outro tipo de livros).

Julgo que esta visão "democrática" e "anti-elitista" é fundamental no trabalho dos editores.
O meu texto da passada sexta-feira, "Pequena reflexão sobre a política caseira", provocou (ainda bem) algumas reacções. A Inês pergunta-me: "E que tal mudarmos o sexo do próximo dirigente do PS? Aqui vai uma ajudinha: HELENA ROSETA!". Não tenho nada contra, cara Inês. Mas nos partidos não basta ter qualidades, é preciso também ter "aparelho".

O meu filho, Luís Miguel, vai mais longe no seu comentário, que transcrevo:

Dos adolescentes do colégio nada mais espero que um papel cada vez menos intermitente na defesa de pequenas (por vezes grandes) causas. Que fiquem por aí, que isso fazem razoavelmente bem. Aventuras maiores podem ser prejudiciais - desde logo aos próprios e, como tal, ao país, que vai precisando deles.

Entre a lástima e a frustração, sem problemas de consciência, no momento actual, prefiro a lástima. Se o país agoniza, M.A.V. dixit, e o Estado é deplorável (o que nem é o mais grave, pois mais que o presente importa a visão do futuro), só resta percorrer o único caminho sensato: reformar, reformar o mais possível. E aí a comparação é de uma gritante evidência - antes muitas lástimas de reformas menores, que a serena frustração de um imóvel conformismo.

Uma sugestão: uma outra reforma, por sinal. Reformem-se os fautores da frustração, renovem-se as mentalidades e pode ser que ainda seja possível pensar em alternativas para a gestão do futuro (porque não tenho dúvidas nenhumas que delas precisamos). A verdade é que os nomes apontados nada prometem de bom, e o maior drama é que seja qual for o nome, faltará sempre uma equipa... "It's the economics".


RESTAURANTES 1
Como a gastronomia faz parte da cultura, recomendo a todos aqueles que passem por Afife (um pouco a norte de Viana do Castelo) uma visita ao restaurante As da Quinta. Local aprazível, parque próprio, comida excelente. Já agora, o telefone: 258 981 879. Aceitam-se sugestões "bloguistas" sobre outros locais de bem-comer. Talvez se possa mais tarde fazer um guia...
ABELAIRA
Morreu Abelaira. O fim-de-semana ficou marcado por esta morte. Mais um dos que eu amei e conheci. A Cidade das Flores, Enseada Amena, como estes livros me marcaram na juventude! Mas dirão ainda alguma coisa aos jovens de hoje?

4.7.03

Tenho acompanhado todo o "barulho" motivado pela reportagem do "Expresso" sobre O Meu Pipi. Mas ao ver no Abrupto as "décimas de refutação" do meu amigo Vasco Graça Moura não resisti a versejar:

Alguém disse que o Pipi
era obra do Poeta.
Veio o Poeta e num i
disse que não era dali
e que tudo era uma treta.

Ficou sem pipi o Vasco?
Ficou o pipi deserto?
Assim vai este país:
brincando no diz-que-diz
com a trombose mais perto.

Quem me dera o pipi de ontem
e dois tomates valentes
para dar c'um pau naqueles
que se divertem contentes

quando o país agoniza
numa merdosa cegueira.
Brincamos à cabra-cega?
É essa a nossa maneira...
PEQUENA REFLEXÃO SOBRE A POLÍTICA CASEIRA

O Governo é uma lástima.
O PS uma frustração.
O PC um cadáver adiado.
O Bloco de Esquerda uma excursão de colégio.

Das duas, uma: ou os adolescentes crescem ou o PS se assume. Não será com Ferro. Será, com Carrilho, na linha de uma esquerda bem vestida e inteligente? Ou, com João Soares, numa linha "associativa" à anos 60? Prefiro qualquer das hipóteses à de um Sócrates derrapando pela Direita...
PEQUENA REFLEXÃO SOBRE A EDIÇÃO
Publicam-se muitos livros. Publicam-se mesmo demasiados livros. Mas quantos desses livros não passam de espuma que o vento levará? Todos temos consciência disso. Mas são as regras da indústria editorial.
Vão longe os tempos em que um editor publicava apenas os livros de que gostava. Já ninguém o faz, mesmo aqueles que, para auto-promoção, dizem fazê-lo. Publica-se o que dá para poder publicar-se o que não dá. É bom que se perceba esta dinâmica. Muitos livros "minoritários" ficariam sem editor se não fosse a existência dos best-sellers que os sustentam
Comemoram-se agora, no Porto, os 50 anos de vida literária de Urbano Tavares Rodrigues. Devem-se-lhe alguns dos melhores livros dos nossos anos 50/60, com aquele "realismo social", tingido de existencialismo, que o afastou do neo-realismo então vigente.
Ficará? Alguns dos seus companheiros de caminho estão já praticamente esquecidos. Quem lê hoje Redol, Manuel da Fonseca, Abelaira, Carlos de Oliveira, José Gomes Ferreira ou mesmo Cardoso Pires?
O futuro (agora presente) é sempre cruel e injusto: prefere as Margaridas Rebelo Pinto às Marias Judites de Carvalho. Que podemos fazer?

3.7.03

Sob o título Finalmente Companhia, o blogue "Textos de Contracapa" saudou o aparecimento deste "Oceanos". Apraz-me registar a saudação, sobretudo vinda do Nelson de Matos, que sempre foi um pioneiro das novas tecnologias. Recordo-me que foi ele a primeira pessoa que conheci a ter um telefone móvel - o que nesse tempo obrigava a transportar na mala do carro, ou em qualquer lado, um "aparelhómetro" que pesava, julgo eu, vários quilos...
Os jovens que hoje levam no bolso o seu telemóvel e trocam por dia centenas de mensagens escritas nem calculam o caminho entretanto percorrido. Ganhou-se em tecnologia, perdeu-se talvez em sonho!
Mas nós sempre na frente, não é, meu caro Nelson?
...mas, disse Salomão, a paciência é, no Homem, o testemunho da sua grandeza. Até quando?
Hoje, discute-se o Estado da Nação. Eu acho que o Estado da Nação é deplorável. Melhor, o que é deplorável é o Estado. A Nação, essa, vai resistindo...

2.7.03

Devo dizer-vos que, até agora, a única coisa de minha autoria é o título deste blog: Oceanos. Tudo o resto (inclusive a instalação do dito) fica a dever-se à gentileza do meu amigo Francisco José Viegas (é nestes momentos que sinto como é importante poder dizer-se a palavra "amigo"...) Foi pois o Francisco que decidiu pôr-me a navegar perto da costa, para não perder o pé - o que me parece um bom conselho, num momento em que,à minha volta, vejo muita gente a afundar-se. Mas decidiu também manter-me um pouco afastado dela, para poder mudar de rumo - outro conselho excelente para quem, como eu, detesta ficar agarrado às verdades feitas e está sempre pronto para embarcar numa nova aventura.
Literatura e política: ele conhece-me o suficiente para saber que a minha vida passou sempre por aqui. Aceitemos pois o desafio!

De literatura, começo por dizer-vos que o último romance do Francisco - Lourenço Marques - é excelente. Amor com amor se paga, é certo, mas eu nunca faria esta afirmação pública se não estivesse profundamente convicto da sua verdade.
E para que não digam que falo de livros "meus", aí vai uma sugestão bem recente: a Ambar, pela mão do (também velho amigo) João Rodrigues, acaba de pôr nas livrarias um extraordinário romance do brasileiro Luiz Antonio de Assis Brasil. Chama-se "O Pintor de Retratos" e merece prioridade absoluta nas leituras de cabeceira.
LINKS A barra de links ainda não está completa, claro. Com o tempo, adicionarei os blogs que vou visitando. Peço desculpa a todos -- muitos -- que faltam.
COMEÇAR. O Oceanos começa a sua vida na blogosfera. Vamos falar de literatura, política e do que houver em linha; perto da costa, para não perder o pé; um pouco afastado dela, para manter a liberdade de mudar de rumo.

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